Praças: o que Serra Talhada perde ao crescer?

Praças: o que Serra Talhada perde ao crescer?

Sempre que vou ao Parque dos Ipês, em Serra Talhada, eu me sinto bem. E me parece que essa sensação está ligada tanto ao ato de fazer exercício ao ar livre, o que traz uma sensação de liberdade, de abertura e ao mesmo tempo de pertencimento a um lugar, como também parece estar ligada ao fato de compartilhar esse espaço com outras pessoas que estão fazendo outras atividades: andando de skate, conversando sentadas num banco, na grama, jogando futebol ou simplesmente comendo juntas numa das barracas de comida.

A praça pública traz uma sensação de pertencimento que nenhum shopping é capaz de produzir. As pessoas estão ali sem o constrangimento da cobrança mental e literal para que estejam consumindo, comprando ou pensando em comprar. Enquanto os shoppings se parecem com reinos da distração, as praças públicas estão mais próximas de serem reinos da atenção, da presença.

As praças geralmente são lugares que nos ativam, seja pelos encontros, pela contemplação da vida, da natureza, do espaço compartilhado com conhecidos e desconhecidos ou colocando nosso corpo em movimento.

Na adolescência, eu frequentava a praça Sérgio Magalhães, no centro de Serra, lá encontrava meus amigos pra farrar (os jovens ainda usam essa palavra?), para cantarmos juntos numa roda de violão, comemorar aniversários, ficar conversando depois das festas, flertar, enfim...

Praça Sérgio Magalhães - centro de Serra Talhada, 2026.

A vida adulta parece não deixar tempo pra estas vivências sem objetivos pré-estabelecidos. Geralmente, a depender do bairro, vejo mães acompanhando crianças pequenas que vão às praças brincar, algumas pessoas mais velhas fazendo caminhada, mas me parece evidente que são os jovens e as crianças que aproveitam mais esses espaços. As mulheres aparecem mais nas aulas coletivas de dança, yoga ou de aeróbica. E mesmo entre os jovens, parece haver uma predominância dos meninos. Por que será?

Os idosos muitas vezes já perderam sua rede de amizades, terminam ficando isolados em casa, sozinhos, mesmo quando estão acompanhados por familiares. Daí a importância de grupos intergeracionais, não apenas de grupos "para a terceira idade". Pois há uma história do nosso lugar e lições sobre a vida a que só os idosos têm acesso e podem falar sobre elas, é preciso que haja espaços para que isso apareça e essas memórias sejam valorizadas - a memória da cidade atravessa cada um de nós.

Outro ponto que afasta as pessoas da praça é o cansaço de quem passa o dia trabalhando e à noite está exausto(a), e que não encontrando motivo para ir até os espaços públicos, prefere ficar em casa. Isso poderia mudar se houvesse uma diversidade de atividades que incluísse também atividades cujo centro é a interação, a escuta e espaços que não exijam tanto a energia das pessoas. Pois geralmente, mesmo as pessoas que estão cansadas, ficam em casa diante de telas, seja a TV ou o celular. O que demonstra que elas não estão de todo passivas, estão buscando maneiras de se conectar com o que gostam ou com outras pessoas, basta que sejam oferecidas oportunidades que valham a pena.

Parque dos Ipês - bairro do Ipsep, 2026.

No caso das mulheres, a situação tem mais uma camada: a do machismo. Muitas das mulheres adultas só conseguem deixar os afazeres domésticos para essas práticas coletivas em ambientes públicos quando estas são vistas como algo mais sério, relacionado à saúde, para que então seja justificável a permanência delas nesses espaços.

Coisa que não acontece com as atividades solitárias ou sem um objetivo específico, como jogar conversa fora ou ficar contemplando a vida na praça, que dirá então participar de atividades que envolvam interação com pessoas desconhecidas. No caso de meninas e adolescentes, há uma restrição ainda maior, devido aos casos de violência (de gênero e sexual).

Foi com isso em mente que passei por algumas praças da cidade, observando o movimento e conversando com pessoas que ali estavam, seja trabalhando ou usufruindo dos espaços e atividades disponíveis.

Ao conversar com Leandro Albuquerque, que é professor e traz as filhas para brincarem no Parque dos Ipês, ele me revelou que o espaço aberto das praças é fundamental, por ser um espaço que as crianças e adultos gostam, sendo comum ver piqueniques e festas de aniversário. Mas ele chama a atenção dizendo que percebe Serra Talhada ficando mais perigosa, limitada e critica a falta de ação do governo em relação às necessidades da população.

Na nossa conversa ele cita os corrimãos da ponte que quebraram deixando a travessia muito perigosa para os pedestres que passam pela praça. Acrescenta que a parte voltada para os ciclistas está abandonada e não se vê guardas municipais nem policiais. Ele ainda cita o dia em que teve que proteger um timbu que estava numa árvore da praça que estava sendo atacado por adolescentes. Reclama ainda que há uma responsabilidade que precisa ser assumida pelo governo, como o investimento e manutenção do ambiente, mas também pela própria população que muitas vezes destrói os equipamentos do parque, as árvores plantadas e mata os animais.

"A gente cobra à prefeitura só que a gente não faz a parte da gente, não mantém a praça limpa, não conserva. É preciso que a prefeitura lembre que nossa cidade não oferece muito lazer, se não for da turminha que bebe que gosta de estar toda semana em bar, o que a gente vai fazer? A cidade não tem um teatro, uma livraria, um evento cultural. O mínimo que deveria ter aqui seriam as praças públicas, que estão abandonadas".
Equipamento público destruído no Parque dos Ipês

O depoimento de Leandro nos mostra que é preciso não apenas pensar na reconstrução de espaços comunitários, na diversificação das atividades que acontecem nas praças, mas também no cuidado com as violências transversais que atravessam qualquer espaço, seja ele público ou privado. A violência de gênero, o racismo, a homofobia, o cuidado com a natureza e os animais, assim como o problema do acesso às atividades são questões que precisam ser pautadas e observadas na recuperação de uma vida comunitária nos espaços públicos.

Em todas essas conversas com pessoas que frequentam as praças, fica evidente como elas já são e podem se tornar ainda mais ambientes propícios para que nós não apenas recuperemos o sentimento de comunidade, que vai sendo perdido com o crescimento e distanciamento urbano e a passagem do tempo, mas para que possamos também nos educar para vivenciar outros tipos de relação entre nós, com o ambiente e com os animais e plantas que dele fazem parte - nesse sentido, as praças públicas são também um espaço educativo!

Daí a importância de retomar o aspecto de encontro, de partilha do tempo, de conversa e de aprendizado. Isso pode ocorrer, por exemplo, através do fortalecimento da identidade, da cultura e das tradições de um lugar: apresentações culturais, cineclube ao ar livre, declamação de poesia, shows, oficinas artísticas. Mas também pela construção de uma programação fixa de atividades esportivas, feira agroecológica e de artesanato e tantas outras maneiras de incentivar a criação de laços que ampliam e fortalecem a vida cultural e social do município ao atrair pessoas para estes espaços.

Área não utilizada no Parque dos Ipês, 2026.

Na praça da AABB, conversei com Luiz Filipe do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), um dos responsáveis pela feira que acontece semanalmente no local. Na entrevista, ele me disse que a ideia da feira surgiu quando o movimento buscou comercializar seus produtos diretamente em vez de depender de intermediários. Hoje, a feira se fixou na praça da AABB e acontece todas as quintas-feiras, das 18h às 20h. Eles comercializam a produção e comidas feitas por agricultores que participam do movimento pela reforma agrária.

Filipe fala que o movimento está com o projeto de tornar a feira itinerante, uma vez por mês eles pretendem estar em diferentes praças da cidade. Mas o feirante faz um alerta e chama a atenção para o fato de que o dia mais movimentado na praça da AABB é justamente o dia em que a feira ocorre: "o dia que tem mais movimento é nas quintas-feiras, nos outros dias o movimento é muito pequeno. Nos outros dias as pessoas tendem a ficar mais em casa". Sobre o parque dos Ipês ele diz que "o movimento também foi bacana, perguntaram se iria ter continuidade, mas não temos condições de ir toda semana como aqui na AABB".

Praça da AABB em dias de quinta, quando acontece a Feira do MST - 2026.

A questão colocada por Filipe é um alerta, que aponta não apenas para a importância do comércio nas bordas das praças, mas ao mesmo tempo mostra que o consumo não pode ser a única "atração" dos espaços públicos, é preciso diversificar as atividades disponíveis para manter as praças vivas como espaço de encontro.

Este argumento é reforçado por pequenos comerciantes que trabalham ao redor do Parque dos Ipês, como Maria José e Olivan Julio, que há 2 anos trabalham com a venda de comida. Eles dizem que o espaço é muito frequentado e que sempre estão consumindo o que eles vendem, mas que por outro lado, se houvesse mais eventos na praça, o consumo e consequentemente a renda deles seria maior.

Em algumas praças da cidade, como a que eu citei no início da reportagem, o problema é a insegurança. A comerciante Jaqueline Mendes (Maravilhas da Jaque), que vende salgados e bolos, circulando por várias praças da cidade, diz que a praça Sérgio Magalhães está esvaziada à noite. Os vários pontos escuros, segundo a pequena comerciante, acabam trazendo uma sensação de insegurança, o que fez com que ela optasse por circular por outras praças.

Banco de madeira com cobertura parcial e planta trepadeira acoplada - Parque dos Ipês, 2026.

Ela também acrescenta que faltam equipamentos e espaços para que as crianças possam brincar. Ao mesmo tempo, questiona o porquê de existir o equipamento para as crianças na praça da AABB e poucas pessoas aparecem com os filhos para utilizar o espaço. Por fim, ela diz que ainda há pouco comércio na praça da Bíblia e na praça da AABB, e que a praça da rua 4, no Alto do Bom Jesus, tem um bom movimento por conta do comércio.

Uma questão comum aos usuários, feirantes e pequenos comerciantes com quem conversei, é a necessidade de melhorar a iluminação, a disponibilidade de banheiros e o acesso a energia elétrica para que os feirantes possam preparar a comida no local, diversificando os produtos oferecidos ao público.

No entanto, além do incentivo ao comércio ao redor da praça, o que atrai pessoas para as bordas do espaço, é fundamental que haja uma infraestrutura como bancos confortáveis, arborização e muita sombra que permitam às pessoas sentarem e permanecerem nas praças, principalmente no caso da nossa cidade que está localizada numa região bastante quente no semiárido.

Corrimão quebrado na praça do Parque dos Ipês, 2026.

Não por acaso, para que todas essas questões sejam pensadas e organizadas, faz-se necessária uma crescente participação de moradores e coletivos que busquem se auto-organizar para fazer a co-gestão desses espaços junto à prefeitura. Porque ninguém melhor que os próprios usuários da praça para saber o que é preciso pra que esse espaço permaneça vivo, amigável e interessante.

Diante disso, talvez esteja na hora de discutirmos como podemos transformar as praças de Serra Talhada em lugares vivos, espaços de encontro, por meio da diversificação das atividades e de uma organização que favoreça a formação de comunidades por meio da troca entre as pessoas.

Crianças jogando futebol no Parque dos Ipês, 2026. Frequentadores comentaram que deveria haver um campo de futebol na área não utilizada construída para bicicross.

Num mundo cada vez mais individualizado, mais preso às telas e à mediação da vida em ambientes controlados por algoritmos, volto a me questionar sobre como podemos retomar e potencializar a capacidade que as praças públicas sempre tiveram de propiciar encontros como as rodas de violão, as conversas com amigos e as reuniões após as festas que vivi na minha juventude. Este tipo de memória, assim como aquelas que os idosos guardam, pode revelar outras possibilidades sobre a maneira como utilizamos os espaços públicos e sua importância para a formação de um sentido comunitário em cidades como a nossa. Que lições podemos extrair dessas memórias?

Não à toa a população continua indo às praças, buscando encontrar e construir laços com outras pessoas: que tal cuidarmos juntos - cidadãos e prefeitura - para que estes espaços passem a ser verdadeiros lugares de convivência onde possamos reconstruir um sentido de comunidade para a nossa cidade?

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