Divulgação do IDEB: Avaliar para que tudo continue como está

Municípios e Estados comemoram notas descoladas da realidade das escolas

Nas últimas semanas, governadores, prefeituras e secretarias de educação foram às redes sociais comemorar aumentos tímidos no Ideb, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica.

Mas você sabe como a educação brasileira é avaliada?

Ela acontece por meio de uma média composta pela taxa de aprovação dos alunos e pelo resultado de uma prova realizada a cada dois anos.

Mas será que esse índice realmente avalia o que acontece no dia a dia das escolas brasileiras? E o mais importante: será que ele estimula a melhoria do processo de ensino e aprendizagem e a resolução dos problemas cotidianos das escolas?

Infelizmente, não.

Postagem no perfil do instagram da prefeitura de Serra Talhada.

Problemas como a falta de infraestrutura, as dificuldades de acesso a direitos básicos dos alunos e de seus familiares, a falta de formação contínua e de qualidade para os professores, a ausência de sentimento de pertencimento às escolas, os problemas de relacionamento entre professores e estudantes, a desvalorização e a burocratização do trabalho do professor, a inexistência de uma gestão democrática e tantas outras questões que impactam diretamente a formação dos estudantes e o trabalho dos professores não são avaliados.

Pior: esse tipo de "avaliação" ignora todos os fatores que afetam a vida nas escolas e se restringe a uma prova, que, por sua vez, mede apenas a capacidade de memorização de curto prazo — o que nada tem a ver com o aprendizado, como já demonstraram as ciências da educação em livros como A Farsa dos Testes, de Daniel Koretz.

Então, para que serve o Ideb? Na verdade, a atribuição de notas às escolas serve, fundamentalmente, para duas coisas: 1) produzir uma falsa ideia de "falta de empenho" para justificar a não melhoria da educação oferecida; e 2) criar a necessidade de um controle cada vez maior, baseado na vigilância e na fiscalização por meio do estabelecimento de metas.

Avalia-se para que tudo continue como está, pois não se toca nos problemas reais que afetam diretamente a formação dos estudantes e o trabalho dos professores.

Qual é o efeito disso na prática?

Um dos principais efeitos é o adoecimento recorde dos professores, que são cada vez mais responsabilizados pelos problemas cotidianos que se multiplicam no ambiente escolar.

Outro problema é o aumento da sensação de falta de sentido que os estudantes veem em ir à escola. Isso acontece porque a estrutura escolar permanece a mesma, apesar das mudanças radicais ocorridas na sociedade nas últimas décadas.

Um terceiro problema é a produção de dados falsos. Como a taxa de aprovação influencia no aumento da nota, alunos são orientados a não vir no dia da prova, outros são transferidos no fim do ano letivo ou tem a matrícula cancelada. A grande maioria passa sem que sejam oferecidas condições mínimas de aprendizado, pois o foco está no treino para os simulados e no aumento da nota a todo custo.

Hoje, temos uma escola administrada como uma empresa, com uma gestão baseada em comando e controle para o batimento de metas, e alunos que cada vez mais rejeitam se submeter a uma estrutura hierárquica engessada e desligada dos interesses e necessidades dos mais jovens e das crianças.

A pressão pelo aumento dos resultados nas avaliações externas, produzida pelas secretarias de educação, faz com que os professores se sintam cada vez mais desmotivados e sobrecarregados.

Em São Paulo, 97,6% dos servidores da Educação paulista relatam algum nível de adoecimento mental, 20% dos servidores da educação do Tocantins precisaram se afastar, mais de 25% dos professores em sofrimento de Santa Catarina tiveram ideações suicidas.

Os espaços de discussão e formação que ainda existem transformaram-se em momentos para a exposição de estatísticas, rankings e planejamento de ações para o batimento de metas. A discussão pedagógica passou a se resumir à preparação para simulados e avaliações externas.

A escola tornou-se uma espécie de cursinho precarizado, e as aulas viraram treinamento para provas que, como já mostramos, não avaliam nem estimulam o aprendizado.

E o que podemos fazer?

Sabendo que o Ideb não avalia nem estimula a resolução dos problemas cotidianos das escolas, o que as prefeituras e os estados que realmente têm compromisso com a educação deveriam fazer?

Em primeiro lugar, criar um sistema de avaliação efetivo, do qual participem os principais afetados pelo que acontece no dia a dia das escolas: gestores, professores, estudantes e famílias, cada um com suas respectivas responsabilidades.

Na Escola Aberta de São Paulo, a diretora participa diretamente dos processos de aprendizagem das crianças junto com os professores, não há uma separação dos trabalhos, mas sim responsabilidades diferentes. Isso faz com que ela saiba por quais problemas os professores passam em seu dia a dia.

Outro mecanismo utilizado na escola é a Assembleia, espaço em que se discutem todos os problemas da instituição, desde aqueles relacionados à aprendizagem até as questões de convivência, infraestrutura e projetos futuros. Tudo o que envolve o funcionamento da escola pode entrar na pauta e ser discutido pela direção, professores, estudantes e famílias.

O papel das famílias também é importante nessa escola, porque elas não apenas autorizam ou cobram, mas ajudam no funcionamento da instituição: participam de rodas de conversa, oferecem oficinas ensinando aquilo que sabem, ajudam a planejar e organizar eventos escolares e podem se comunicar diretamente com os educadores sobre a vida escolar de seus filhos.

Ou seja, avaliar pensando na melhoria da educação vai muito além de aplicar provas, tem a ver com criar um ambiente em que as pessoas que ali convivem possam se avaliar o tempo inteiro. Esse tipo de avaliação não serve para julgar, cobrar e pressionar, mas para melhorar as condições de trabalho e convivência. E o principal: ela é feita por aqueles que realmente vivem o dia a dia da escola.

O IDEB poderia servir para apontar desigualdades e mapear situações de vulnerabilidade educativa no país, mas infelizmente se tornou um mecanismo político de distribuição de poder e burocratização do trabalho docente com efeitos nefastos no processo de ensino e aprendizagem. Hoje, seu efeito é muito mais negativo que positivo, pois ao não ouvir as pessoas mais afetadas, impede que seus problemas sejam resolvidos. A crise da educação não é um acaso, mas um projeto de poder.

Saiba mais:
https://www.instagram.com/escolaabertade.sp/

FONTES:
Pesquisa da Apeoesp (2026):
O levantamento oficial do sindicato revela que 97% dos servidores da educação estadual relataram adoecimento mental, detalhando os sintomas mais comuns como ansiedade, pânico e depressão. https://www.apeoesp.org.br/noticias/noticias-2026/adoecimento-mental-atinge-97-de-servidores-da-educacao-e-81-da-saude/
Reportagem do G1 (Outubro de 2025): A matéria detalha os mais de 1.700 afastamentos na rede estadual (cerca de 22% dos profissionais) e as centenas de licenças na rede municipal de Palmas.
https://sinte-sc.org.br/Noticia/22061/professores-doentes-pesquisa-do-sintesc-revela-crise-na-saude-dos-trabalhadores-da-educacao
Pesquisa do Sinte-SC (Julho de 2025): O estudo completo do sindicato documenta o impacto das condições de trabalho e revela o dado de que 28% dos profissionais relataram já ter tido ideação suicida.
https://g1.globo.com/to/tocantins/noticia/2025/10/25/saude-dos-professores-mais-de-17-mil-profissionais-da-rede-estadual-se-afastaram-por-adoecimento-mental-em-2025.ghtml

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