E se o Rio Pajeú tivesse água o ano inteiro?

Serra Talhada não tem tratamento de esgoto e quase tudo vai parar no Rio Pajeú. Mas e se o próprio esgoto produzido pela cidade fosse a solução?

O Rio Pajeú nasce no município de Brejinho e atravessa mais dez cidades pernambucanas, entre elas Serra Talhada. Mas há algo em comum entre quase todos estes municípios: a responsabilidade pela tragédia ambiental que assola o rio, pois cada um deles contribui de maneiras diferentes para a sua degradação.

Carnaíba, Calumbi e Flores destróem as matas ciliares. Em Serra Talhada e Afogados da Ingazeira, há assoreamento, casas construídas sobre as margens, leito obstruído por cercas e o lançamento de lixo, esgoto e dejetos de matadouros e pequenas indústrias.

Em Serra, apenas 35,87% do esgoto é coletado e, segundo o Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA, 2024), 0% do esgoto coletado é tratado, o que tem impacto direto na saúde da população. Entre 1996 e 2020, foram registradas 253 mortes por doenças relacionadas ao saneamento inadequado do município, sendo 26 delas só em 2020.

O Plano Municipal de Saneamento Básico, de 2025, calcula que a cidade gera cerca de 15,7 milhões de litros de esgoto por dia, que em sua quase totalidade acaba sendo direcionado para o solo, para a drenagem natural, para o açude Borborema ou para o próprio Rio Pajéu.

O Plano confirma o abandono do sistema de saneamento básico descrevendo que o município não possui um sistema público eficiente e que por isso a poluição toma conta do rio, seja pelo despejo de esgotos urbanos, agrotóxicos e de efluentes industriais. O documento ainda revela a falta de conhecimento sobre a dimensão do problema, pois a prefeitura não possui dados sequer sobre a quantidade de casas que tem fossa, de que tipo são, não há análise dos efluentes que são despejados no rio, quanto de esgoto é lançado ou a quantidade de ligações clandestinas.

Em relação aos distritos, em Bernardo Vieira, Santa Rita e Varzinha existe rede coletora. Já em Caiçarinha da Pena, Luanda, Tauapiranda e Logradouro há uma combinação de rede coletora e fossas sépticas, enquanto no distrito de Pajeú há apenas fossas. Mas nenhum distrito possui estação de tratamento de esgoto. É sempre a mesma situação: o esgoto é coletado e lançado em algum lugar sem tratamento, o que aumenta grandemente o risco de contaminação do lençol freático.

Como solução, o plano propõe um sistema condominial de esgoto com rede coletora e estação de tratamento, dividido em duas etapas: primeiro uma estação compacta de emergência para receber o conteúdo das fossas e depois a rede completa com ampliação da estação.

A COMPESA tem contrato para administrar o sistema de saneamento básico, em Serra Talhada, desde 1973. No próprio plano diz que, em 53 anos, a empresa nunca investiu no tratamento de esgoto da cidade. Ou seja, há um contrato e um flagrante descumprimento que, ao que parece, nunca foi cobrado para que fosse cumprido, seja em termos jurídicos ou políticos.

Nos últimos meses, foi acertada a concessão de parte da COMPESA, incluindo a área da empresa que é responsável pelo serviço de tratamento de esgoto. O contrato prevê que até 2033, 90% de todo o esgoto seja tratado. Mas se durante 53 anos o contrato foi descumprido, o que garante que agora ele passe a ter valor real sem que haja fiscalização?

Em relação à parte técnica, no que diz respeito ao caso do Rio Pajeú, se faz necessário tanto a instalação de interceptores que capturam o esgoto antes que ele chegue ao rio, como também uma estação de tratamento para onde estes interceptores conduzem o material coletado. Para o caso da nossa região, o método mais indicado é o de lagoas de estabilização, que combina uma lagora aneróbia com uma lagoa facultativa, feito assim sai mais barato e adaptado às condições locais.

Esta solução também abre uma via para que por trás desse desastre — ambiental, de saúde pública e político — esteja também a resposta para a revitalização do rio. Lençóis Paulista, interior de São Paulo, que é do tamanho de Serra, em 2013 tratou 100% do esgoto e passou a devolver a água tratada para o Rio Lençóis, o que custou R$ 12 milhões à cidade (hoje o valor atualizado seria de R$ 27 milhões).

E se isso fosse feito aqui, o que mudaria? Muita coisa. Hoje, Serra produz entre 109 e 146 litros de esgoto por segundo. No Pajeú, quando chove, a vazão é de 110 a 388 litros de água por segundo, enquanto no período seco ela cai para zero. Significa que, caso o esgoto fosse tratado, teria volume parecido com o do rio nos seus dias de chuva. Ou seja, com o esgoto 100% tratado e devolvido ao rio, o Pajeú poderia ter água o ano inteiro correndo no trecho de Serra Talhada. Não é sonho, mas depende de cobrança e compromisso político. Os dados estão aí e isso já aconteceu em outros lugares.

Esgoto tratado não é lixo. Ao contrário, com tratamento de qualidade, vira recurso: regenera o rio e a biodiversidade dos ecossistemas locais, recarrega o solo e o aquífero aluvial, além de servir para agricultura e criação de animais — sem depender da chuva.

Por isso, precisamos questionar: por que Serra Talhada não tem sequer uma estação de tratamento funcionando? Qual é o plano da Prefeitura e qual a responsabilidade que ela vai assumir? E a COMPESA, vai finalmente cumprir o contrato? Ou os responsáveis vão continuar lavando as mãos e apontando um para o outro — enquanto o rio recebe o nosso esgoto? O Rio Pajeú não vai se salvar sozinho. É preciso acompanhar, registrar e cobrar. E cobrar não tem nada a ver com reclamar: cobrar é assegurar um futuro de regeneração para o Rio e consequentemente para nós, seja em termos de saúde, de cultura, de economia, de agricultura, de desenvolvimento social e humano em sentido amplo.

Por fim, é preciso saber com exatidão quais as metas estabelecidas para as empresas que assumiram a concessão da COMPESA, cobrar à prefeitura para que fiscalize o novo contrato, assim como verificar com o Governo do Estado quais são os mecanismos concretos de acompanhamento das metas até 2033 e o que acontece em caso de não cumprimento por parte do consórcio.

PMSB-ST — Plano Municipal de Saneamento Básico de Serra Talhada (2025) - https://serratalhada.pe.gov.br/site/wp-content/uploads/2025/09/MINUTA-PMSB-ST-ANEXO-UNICO.pdf

O rio e a bacia

Dados de saneamento por município

Caravana do Pajeú

Lençóis Paulista

Concessão da COMPESA

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