E se o Rio Pajeú tivesse água o ano inteiro?
Serra Talhada não tem tratamento de esgoto e quase tudo vai parar no Rio Pajeú. Mas e se o próprio esgoto produzido pela cidade fosse a solução? O Plano Municipal de Saneamento Básico de Serra Talhada, de 2025, confirma: 0% do esgoto coletado é tratado. A COMPESA tem contrato para resolver isso desde 1973. Em 53 anos, nunca investiu no esgoto da cidade. Está no documento.
Mas por trás desse desastre — ambiental, de saúde pública e político — pode estar também a resposta para a revitalização do rio. Lençóis Paulista, interior de São Paulo, que é do tamanho de Serra, em 2013 tratou 100% do esgoto e passou a devolver a água tratada para o Rio Lençóis, o que custou R$ 12 milhões à cidade (hoje o valor atualizado seria de R$ 27 milhões).
E se isso fosse feito aqui, o que mudaria? Muita coisa. Hoje, Serra produz entre 109 e 146 litros de esgoto por segundo. No Pajeú, quando chove, a vazão é de 110 a 388 litros de água por segundo, enquanto no período seco ela cai para zero. Significa que, caso o esgoto fosse tratado, teria volume parecido com o do rio nos seus dias de chuva. Ou seja, com o esgoto 100% tratado e devolvido ao rio, o Pajeú poderia ter água o ano inteiro correndo no trecho de Serra Talhada. Não é sonho, mas depende de cobrança e compromisso político. Os dados estão aí e isso já aconteceu em outros lugares. Esgoto tratado não é lixo. Ao contrário, com tratamento de qualidade, vira recurso: regenera o rio, recarrega o solo, serve para agricultura e criação — sem depender da chuva.
Por isso, precisamos questionar: por que Serra Talhada não tem sequer uma estação de tratamento funcionando? Qual é o plano da Prefeitura? E a COMPESA, vai finalmente cumprir o contrato? Ou os responsáveis vão continuar lavando as mãos e apontando um para o outro — enquanto o rio recebe o nosso esgoto? O Rio Pajeú não vai se salvar sozinho. É preciso acompanhar, registrar e cobrar. E cobrar não tem nada a ver com reclamar: cobrar é defender o que é nosso.