A Rádio Alice e suas lições
Um dos principais fatores na vitória de Lula, foi a organização das ações do campo progressista nas redes sociais.
Isso aconteceu em várias frentes, mas o grupo conduzido por Janones teve um impacto gigantesco ao coordenar ações e produzir um sentimento de unidade entre diferentes segmentos.
Numa situação de crise, ordens centralizadas vindas de cima para baixo, se tornam fundamentais para nos mobilizarmos de modo rápido e efetivo. Mas e agora, depois das eleições? Como esses diferentes segmentos podem se organizar entre si para ter autonomia construindo mudanças a partir de baixo e não apenas de cima?
Em meados dos anos 1970, em Bolonha, na Itália, o Movimento Autonomia operava de modo descentralizado para estimular a auto-organização radical de estudantes e trabalhadores sem mediações hierárquicas promovendo a recusa do trabalho alienado, aquele que nos separa do que nos vitaliza. É nesse contexto que surge a Rádio Alice.
É pela prática das chamadas Rádios Livres que surgem espaços político-culturis compostos de operários, estudantes, jovens trabalhadores precarizados e coletivos feministas.
A transmissão da rádio é então viabilizada por estudantes e técnicos do coletivo. Ela passa a funcionar num apartamento no centro da cidade, através de uma mesa de som composta por toca-discos, gravadores de fita e microfones de bancada.
Uma das inovações era a conexão direta entre a linha telefônca residencial e o transmissor. Qualquer ouvinte que ligasse entrava direto e ao vivo na transmissão. A rádio tinha um alcance de até 15km, o que cobria a cidade e sua periferia.
A programação era aberta, qualquer um poderia entrar em contato e assumir um horário. Ali, os recursos e as pessoas estavam disponíveis para possibilitar uma verdadeira participação na produção midiática. O papel de ouvintes e de radialistas se confundia.
Havia intervenções ao vivo por telefone, o estúdio estava sempre aberto ao público. Haviam também entrevistas, transmissões de reuniões de coletivos e movimentos sociais e os próprios ouvintes produziam seus programas.
Estudantes ligavam de orelhões públicos durante protestos para informar o que acontecia, para indicar a localização de barricadas, ataques policiais ou sobre onde conseguir assistência médica.
Mas as pessoas ligavam também pra relatar sonhos, reclamar, contar piadas, propor receitas ou conversar com quem estava no estúdio. Havia momentos de leitura de textos literários, poemas, textos teóricos e até mesmo performances e experimentos sonoros.
A rádio Alice se tornou um espaço para experimentação e discusão aberta sobre os mais diferentes temas. Mergulhar na sua história pode nos trazer lições preciosas sobre como uma prática midiática fora do ambiente controlado pelos monopólios pode fermentar outros modos de vida e outros mundos possíveis.
Lições:
- A ideia não é criar redes sociais gigantescas como as das big techs, mas garantir que as redes sociais alternativas se tornem um novo meio de expressão para as pessoas. Onde elas possam se expressar, se organizar e construir comunidades.
- Não é a multiplicação de redes sociais alternativas que as torna "revolucionárias" ou "emancipadoras", mas uso que fazemos delas, a maneira como nos organizamos e permitimos a participação na sua construção.
- A questão do financiamento é crucial, pois a publicidade tende a exercer poder sobre a organização das redes, a tomada de decisões e os tipos de conteúdos. Se as redes não tem fins comerciais, elas precisam ser financiadas pelos próprios usuários.
- É o monopólio das redes sociais comerciais que faz com que as redes sociais livres sejam percebidas como revolucionárias, mas elas são apenas meios de nos expressarmos de outras maneiras que não aquelas definidas pelas big techs.
- É possível imaginar redes sociais em que se discute maternidade, paternidade ou que discutem feminismos, outra que se dedica a educação ou ao cinema nacional. Ou mesmo redes de feministas que discutem educação, maternidade e cinema. Os temas se atravessam a medida que comunidades se formam e convivem com suas diferenças.