Como implodir as big techs?

O mesmo Whatsapp que serviu como infraestrutura para a vitória de Jair Bolsonaro, em 2018, agora se tornou determinante para a virada de Lula. Mas o que mudou? A resposta abre um campo de novas possibilidades...

Não é surpresa que foi a partir do canal do Exército do Lula que saíram as ordens para compartilhamento de vídeos no próprio whatsapp, ações no instagram, no X e outras tantas "missões" que impactaram no ecossistema digital e reverberaram nas ruas por meio de um espírito de unidade que não se via há muito tempo no campo progressista brasileiro.

"Mas se a ferramenta fosse o que decide, Lula teria perdido. O que mudou entre o primeiro e o segundo turno foi quem se organizou melhor para explorá-la, usando mais elementos e o contexto a seu favor" - explica Javier Pallero, especialista em Tecnopolítica.

Para além das estratégias de mobilização que diminuíram grandemente o número de abstenções e convenceram milhões de pessoas do risco que Flávio Bolsonaro representava para os direitos sociais e para a própria democracia, após a vitória, se faz urgente nos desfazermos da ilusão de que é inevitável permanecer prioritariamente nas redes sociais comerciais das Big Techs.

Para isso, precisamos entender que faz diferença a arquitetura da rede que estamos usando.

No caso das missões de Janones, foi determinante estarmos em um canal, pois ele funcionava como um centro de comando que não poderia ser afetado por algoritmos, como acontece no X, no Instagram e no TikTok, por exemplo.

Ao contrário do que acontece nos feeds, o que vemos no canal não é filtrado e organizado por um sistema de recomendações "invisível", ao qual não temos acesso. No canal, as mensagens chegam na ordem em que são enviadas.

Quem dirige o canal decide quando e a quem as mensagens são direcionadas, sem interferência de um algoritmo.

No caso do canal do Exército do Lula, as ações começavam no canal, milhões de pessoas as recebiam e replicavam com seus contatos, para grupos de família, do trabalho, do bairro ou eram replicadas em redes sociais vizinhas.

Isso permitiu que estas ações circulassem também em redes de confiança pessoal. É diferente receber um vídeo de um familiar ou de um colega de trabalho de outro que chega entre dois anúncios no feed.

O que aconteceu mostra a importância da arquitetura das redes sociais: utilizamos uma arquitetura que permitiu instalar um centro de comunicação sem interferências de algoritmos para atuar tanto nesta rede (Whatsapp) quanto em outras redes em que esse tipo de espaço não existia ou não era funcional (Instagram, Tiktok, Kwai, etc).

Por isso, é essencial a construção de uma política de soberania digital para garantir que possam haver alternativas, ferramentas e modos de interagir que possibilitem práticas de comunicação inovadoras e que atendam as nossas necessidades concretas.

Javier Pallero acrescenta que, para isso, é preciso proteger o anonimato, a criptografia, o código aberto, expandir a comunicação direta entre redes, equilibrar o campo de jogo com medidas antimonopólio e investimento estratégico, dando poder a usuários e comunidades.

E apesar dessas condições, nada disso resolve o problema sozinho, pois tudo depende de que as pessoas possam se organizar, que foi o que permitiu ganharmos as eleições.

Foi um feito e tanto o que fizemos usando uma plataforma da Meta, que é centralizada, fechada e sem comunicação direta com outras redes. Um canal vertical, com tropa, missões e um general foi o suficiente. Mas mobilizar milhões em um momento de crise é diferente de dar voz e participção. Se Lula acredita que isso irá garantir participação nas decisões do governo, está equivocado.

Articular espaços digitais de expressão coletiva e individual, de discussão, tomada de decisões e de convivência, exige outros tipos de arquitetura. Redes em que o aspecto comunitário seja priorizado.

Redes como Instagram, TikTok e X, estão focadas na repercussão de expressões predominantemente individuais através da viralização de vídeos curtos padronizados. Isso produz um ambiente competitivo e anti-comunitário.

Já existiram arquiteturas voltadas para a criação de comunidades, como o IRC, Orkut e os antigos fóruns. É preciso aprender com os prós e contras dessas experiências e incorporar esses aprendizados às arquiteturas com as quais estamos acostumados, como fez, por exemplo, o projeto Bonfire, que faz parte do Fediverso - uma rede de plataformas independentes que se comunicam entre si e composta por pessoas comuns, artistas, produtores de conteúdo, programadores, escritores, feministas, etc.

Hoje, já é viável criar e estabelecer espaços onde tanto a auto-organização, horizontal e colaborativa, quanto a organização vertical e operativa possam coexistir, a depender das necessidades de cada contexto. Façamos a mudança acontecer!

Postagem inspirada no texto de Javier Pallero em:
https://javierpallero.substack.com/p/no-gano-whatsapp

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