As Mini-FMs e os encontros-transmissão

Tetsuo Kogawa é um artista e radialista japonês criador das Mini-FMs.
As Mini-FMs eram pequenas estações de rádio caseiras que surgiram na década de 1980 no japão. O funcionamento dessas rádios nada tinha a ver com as rádios tradicionais que você conhece.
Enquanto as rádios convencionais buscam ampliar a cada dia o seu público, as Mini-FMs transmitiam para poucas pessoas com a intenção de criar e fortalecer encontros comunitários.
Em agosto de 1981, inspirados pelo movimento das rádios livres italianas, Kogawa e seus amigos encontram uma brecha na legislação japonesa para transmissões de baixa potência.

Decidem então montar um pequeno transmissor FM e passam a se encontrar semanalmente para conversar e debater sobre política e mudanças sociais enquanto transmitem.
O transmissor era barato e qualquer um poderia comprar, só que devido a sua potência, limitada pelas leis japonesas, a transmissão alcançava apenas 500 metros ao redor do apartamento de onde transmitiam.

Mas como estavam numa área da cidade bastante povoada, haviam 20.000 ouvintes em potencial.
Era justamente essa limitação das condições técnicas e espaciais que tornava o local de transmissão um ponto de encontro comunitário. Ouvintes e curiosos faziam visitas frequentes.

Essa era a sua principal diferença em relação às rádios comerciais: o público se juntava à discussão, assumia também o microfone e passava a discutir as questões sociais e culturais que envolviam a comunidade.
Muitas ações concretas surgiam desses encontros-transmissões, ali se formavam grupos que criavam projetos em comum: revistas, coletivos artísticos e atividades sociais ou culturais.
As Mini-FMs transformavam ouvintes, consumidores passivos de rádio, em participantes, pessoas que passavam a assumir o microfone para falar o que pensavam.

Hoje, numa época em que temos os meios mais avançados de comunicação, estamos mais isolados que nunca.
As Mini-FMs nos lembram que quando priorizamos a comunicação massiva, para um grande público, perdemos a proximidade e talvez estejamos falando sozinhos.
A rádio inventada por Kogawa e seus amigos não era pequena por acaso, era pequena pois priorizava o encontro entre as pessoas de uma comunidade, a tecnologia midiática servia para potencializar esse encontro.

As Mini-FMs funcionavam para transmitir uma espécie de convite via rádio para que outras pessoas se juntassem ao grupo e às suas discussões.
Será que é possível, hoje, criarmos espaços midiáticos que priorizem esses encontros? Onde algo que nos transforme possa acontecer, em vez de disputarmos as visualizações de uma platéia passiva que consome freneticamente pulando de vídeo em vídeo?