O estado tira com uma mão e metralha com a outra

Quando vemos essas cenas do massacre no Rio e nos arriscamos a ler os comentários, fica evidente como funciona, de modo perfeito, a máquina de extermínio no capitalismo. As redes sociais, os influencers, as séries, filmes e religiões ao gosto do freguês fazem parecer que vivemos a luta do bem contra o mal. E quem é esse mal? Ah, ele é coisa do diabo, mas, ao mesmo tempo, seria uma escolha. O mal não é produzido pelo Estado ausente, pela economia predatória, pelas próprias políticas públicas ineficientes, pela cultura da violência; ele é aquilo que já nasce mal, com uma arma na mão, roubando, matando e vendendo droga.

Não existiria uma sociedade funcionando como indústria do mal; o mal já nasceria pronto. É uma conclusão rápida e fácil, ainda mais em ambientes programados para funcionar pela confirmação de crenças e preconceitos. Agora, existem os assassinos do bem, os massacres do bem, as execuções a sangue frio do bem, assim como existe tudo isso do outro lado.

Resta saber se há diferença ou se essa diferença é apenas um produto de marketing para que humanos normalizem o assassinato como parte de sua cultura, enquanto os reais criminosos não são citados, a velha política do pão e circo: “Aqui está o sangue que vocês pediram para suportar as condições que nós impomos aqui do andar de cima.”

No fundo, todos sabem que, em poucos dias, as facções irão substituir os seus “soldados”, assim como a polícia fará com os policiais mortos. A indústria que produz a violência seguirá firme e forte: ninguém ousa mexer com o lucro. O que resta é disputar e programar no nível da violência humana: organizar os jogadores em campo e a torcida nas arquibancadas. Um jogo cuja dinâmica depende da morte e a torcida foi treinada a sempre gritar por mais.