O cientista místico

A busca de Christopher Alexander por uma linguagem de padrões vivos

O cientista místico

Há um bom tempo venho trilhando um caminho que de forma clichê chamam de “autoconhecimento”. O mais engraçado de tudo é que o autoconhecimento, ao que parece, não tem nada a ver com o conteúdo, com a busca por um conhecimento específico, secreto ou libertador. Mas com a capacidade de se autoconhecer, de se autoperceber continuamente.

O aspecto mais frustrante do proceso é se perceber andando em círculos, fazendo promessas mentais para ter mais atenção, para estar mais atento ao momento presente e logo em seguida voltar às distrações da vida mundana: paranóias habituais, redes sociais, atividades cotidianas, afazeres domésticos, preocupações com o futuro, etc.

E cada vez vai ficando mais evidente a dificuldade que é desenvolver esta percepção de si mesmo, principalmente quando tudo nos leva a buscar a percepção do que está fora de nós, incluindo os pensamentos que o que está fora desperta ao conectar-se com nossas memórias, o já vivido, que está dentro.

Estes dias, estive relendo o matemático e arquiteto Christopher Alexander (1936-2022) , cujo trabalho influenciou profundamente as ciências da computação com a criação do conceito de Linguagem de Padrões. Desde o início, o que despertou meu interesse neste cientista deveras abstrato, foi seu lado “místico” que ao mesmo tempo teimava em soar científico.

Christopher Alexander, Architect Who Humanized Urban Design, Dies at 85 -  The New York Times

Quando estava lá pelos 30 e poucos anos, Alexander mergulhou na tradição Zen e isso mudou completamente o seu modo de se posicionar no campo da arquitetura - suspeito que em todo o resto. No seu livro, The Timeless Way of Building (1979), ele fala sobre como a construção de uma linguagem de padrões (viva) nada mais é que a maneira como nós, organismos humanos, podemos retomar de forma autônoma a capacidade inata que tudo que é natural possui de gerar harmonia e integridade a partir de nós mesmos na contínua relação que temos com aquilo que está ao nosso redor.

O conceito de padrão (pattern, em inglês) busca designar relações que se repetem e produzem variações, diferenças. Tudo que existe é formado por padrões, tudo que é vivo e não-vivo é uma composição de padrões, desde escalas minúsculas, como as composições mais básicas dos átomos que se unem para formar um agrupamento que em conjunto com outros agrupamentos articulam uma determinada geometria espacial (em seres vivos ou não), até grandes estrelas ou buracos negros que também são relações entre modos de se relacionar no espaço e os acontecimentos que estas maneiras permitem que surjam sob aquela determinada configuração.

Todavia, mesmo que duas folhas possuam os mesmos padrões, elas nunca serão iguais pois as condições ambientais e recursos disponíveis aos quais respondem são únicos: seja a quantidade de luz ou de água que recebem ou a qualidade dos elementos presentes na sua composição enquanto eram geradas, porque os mesmos padrões em condições singulares geram variações.

Por outro lado, nem tudo são flores, existem padrões vivos - que equilibram as forças internas ou resolvem os conflitos entre elas por meio do seu modo de organizar tais forças ou elementos - e os padrões mortos - que não conseguem (mais) resolver as relações entre as forças que estão sob o seu modo de organização. O que fica claro, é que os sistemas vivos são dinâmicos, estão sempre em relação com outros sistemas e, por isso, em mudança. No entanto, os sistemas que são compostos por uma linguagem de padrões viva conseguem se autoregenerar e se equilibrar em meio às transformações contextuais que os acometem, já que estes padrões expandem o seu equilibrio através da rede interdependente da qual fazem parte junto a outros padrões. No caso dos padrões mortos, acontece o contrário, estes também afetam os padrões ao seu redor, mas produzem efeitos que irão levar o sistema a um desequilíbrio insustentável.

Christopher Alexander The Timeless Way of Building — DOP

Em certo trecho do livro, Christopher Alexander aponta que nada que é complexo pode ser criado num único ato, pois isto pressuporia o conhecimento prévio de todas as possíveis condições a que estará exposto o desenvolvimento daquilo que está sendo criado. Aquilo que nos propomos a criar certamente enfrentará mudanças em seu contexto que não somos capazes de antever por meio de um planejamento totalizante. Por isso, a natureza estabelece regras ou padrões, que se combinam de forma interdependente, para lidar com as situações inesperadas que possam surgir, criando estratégias para que tais configurações possam estabilizar o sistema em cada uma das etapas que virão, salvaguardando a sua integridade por meio do equilíbrio entre as forças internas nas relações consigo e seu ambiente.

A própria natureza, diz Alexander, produz a vida desta maneira: a cada etapa de desenvolvimento de uma árvore, desde a semente, há dois processos que correm em paralelo: um que conduz o organismo por meio da autonomia que suas partes possuem para se adaptar às condições atuais do contexto com o qual interagem e outro que guia o organismo, enquanto unidade entre estas partes, para que ele desenvolva o seu potencial enquanto uma totalidade, neste caso, como árvore. Nos seres vivos, este processo é conduzido por um elemento central chamado código genético, uma linguagem que contém os padrões a serem gerados ao longo do processo de adaptação e evolução de um sistema complexo em relação contínua com seu estado atual e o ambiente que o envolve.

Voltando à nossa conversa inicial, ao retomar a leitura da obra deste matemático que foi um renomado arquiteto e um pouco místico, me pego pensando sobre o aspecto cultural e ético desta proposta: Como a nossa cultura, que é uma composição de padrões, tem se auto-organizado a partir dos padrões que temos hoje? Que padrões tem predominado e quais os seus efeitos sobre a nossa cultura? Estes padrões estão vivos ou mortos? Que padrões estão vivos, quais estão mortos? Seria possível regenerar os padrões mortos? Como?

E ai chego até a nossa própria subjetividade: nossas ações, pensamentos, modos de usar o corpo, de sentir, quais seriam os nossos padrões? Quais são os padrões que tem desequilibrado a nossa vida, que por sua força negativa tem se espalhado e afetado as nossas relações, o nosso modo de vida? Como podemos transformar estes padrões mortos em padrões vivos? É realmente necessário algum tipo de esforço, julgamento mental?

O que seria o autoconhecimento senão se envolver com esta percepção da nossa linguagem de padrões e a reconstrução pela experimentação contínua de uma maneira de viver cuja linguagem é viva, equilibrada, intensa.

-

Obs.: continuarei escrevendo sobre o livro, vai vir uma parte 2 com aquilo que ele propõe para estas e outras perguntas que deixei na parte final do texto.